quinta-feira, 3 de julho de 2008

AS INCERTEZAS DA VIDA

Sempre me ensinaram, desde criança, que deveria respeitar os mais velhos. Agora que sou velho tenho que respeitar, por convencimento, os mais jovens. Tal comentário não é um jogo de palavras. É uma frase que faz com que sempre esteja policiando nossas máscaras, de modo a preservar a dignidade da pessoa, na liberdade. Na medida em que o tempo vai passando, ele vai se modelando de diversas formas (até circular, como diria o escritor Borges) e nos faz pensar que essa história de “pobres velinhos” é uma mentira disfarçada. A construção cultural de que a senilidade torna as pessoas frágeis e desconcertadas, é uma farsa secular. Se a gente foi ruim de jovem, podem ter certeza, com a velhice isso vai aumentando proporcionalmente. O esconde-esconde das ações e dos maus pensamentos sempre vem acompanhado da fachada de “pobrezinho o vovozinho”.
Claro! Não se espantem. Nada nesta vida é uma constante linear. Não existe bem de um lado e mal do outro. Tal maniqueísmo é próprio das invenções politicamente corretas, aceitas como verdadeiras. Isso acalma a sociedade. Se houver uma recaída senil, é apenas um desvio. As monstruosidades cometidas por velhos são dissimuladas nos porões do esquecimento social.
Mas vejam, as estatísticas mostram que por cada jovem mal encarado, existe um velho muito pior. A história da humanidade nos revela isso. Insanos enrugados, tarados senis, destruidores insensíveis, assassinos cruéis, seqüestradores infames, escritores malfadados, militares diabólicos, políticos corruptos, estupradores de crianças, religiosos pedófilos, expertos que se fazem passar por loucos e muitos outros. A lista é interminável. Os jovens devem viver apavorados. Sinto uma profunda compaixão por eles.
Nessa trágica enumeração, o que há de similaridade? Todos são velhos, não tem muito tempo de vida. Anelam a juventude que perderam. Vingam-se destruindo o mundo e sua beleza. Não suportam a exuberância juvenil, desautorizando-a com a artimanha de que a experiência é resultado dos anos. É por isso que nós, velhos, devemos aprender com os jovens. Eles, todos os dias, nos ensinam alguma coisa nova. O amor juvenil, o desapego às convenções, os sonhos ilimitados e as vivências da própria vida. Não temos direito de isentar-nos da contemporaneidade de nossos atos. Devemos sim, responder por eles do que nos desonerar da responsabilidade sobre os mesmos. Nossa tarefa é descobrir nesse percurso quais são os erros cometidos. Quem sabe um dia a gente possa compartilhar a vida sem as incertezas da longevidade, com os velhos refazendo os caminhos para que os jovens os transitem sem medo do futuro.
Victor Alberto Danich

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