quarta-feira, 13 de abril de 2011

A TEORIA DA CLASSE OCIOSA

Na virada do século vinte, os Estados Unidos estavam prestes a se tornar a maior economia do mundo. Possuindo um mercado tão importante como o britânico, mas represado nas suas forças produtivas, bastou apenas um espetacular avanço tecnológico para que os custos de produção se tornassem cada vez mais baratos e, com isso, houvesse o repentino surgimento das “Câmaras de Comércio”, instituições destinadas a influenciar os preços do mercado. O interesse não revelado destas organizações era estabelecer acordos entre as empresas, de modo a limitar a produção e manter níveis de preço, obtendo assim lucros exorbitantes a custa dos consumidores. Apesar da declaração de ilegalidade por meio de leis antitrustes, as maiores companhias norteamericanas começaram a vender por preços inferiores aos dos seus concorrentes menores para depois, num golpe de misericórdia, assumir o controle. Os grandes conglomerados que surgiram destas operações, geravam lucros tão formidáveis que podiam exercer um controle absoluto do mercado sem interferências. Uma riqueza ilimitada começava a surgir nos Estados Unidos, criando gigantes econômicos que modelavam as bases para o domínio do mundo através de uma elite social diminuta e astuta. O dinheiro nas mãos desses indivíduos não podia parar. O século vinte surgia sob o comando de uma nova classe de empreendedores predadores, que assumira o controle da sociedade, que desafiava o próprio governo e se reproduzia sem dificuldades na “terra dos livres”. Thorstein Veblen, um filósofo norteamericano de origem norueguês, que ocupava um cargo docente na Universidade de Chicago, em 1892 – conhecido por seus colegas como uma pessoa excêntrica e sarcástica – foi, curiosamente, um dos maiores críticos da economia liberal que vigorava na época. Ele concluiu que os modelos matemáticos que se baseavam no comportamento racional, propostos pelos teóricos neoclássicos, tinham pouco a ver com os processos econômicos que moldavam a sociedade. As influências das forças históricas e psicológicas eram muito mais importantes na conformação da sociedade capitalista do que apenas o comportamento maximizador e egoísta. Tal pensamento foi condensado no livro “A teoria da classe ociosa”, publicado em 1899. O prólogo começa com a seguinte frase: “A instituição de uma classe do ócio é encontrada em seu melhor desenvolvimento nos estágios mais elevados da cultura bárbara”. Tal conjectura estava baseada nas atividades econômicas exibidas pela sociedade norteamericana opulenta da época. Os ricos estavam convencidos que eram diferentes dos demais. As riquezas que ostentavam, não eram simplesmente um “acidente da existência, e sim um reflexo de sua superioridade biológica”. A classe a qual pertenciam estavam livres de atividades servis. “Enquanto outras formas de vida inferiores trabalhavam, eles viviam sem esforço, nada fazendo”. Nesse caso, o ócio era sua definição qualitativa, que deveria ser exposto como forma de poder e superioridade. Não apenas como um fator de diferenciação, senão que esta qualidade devia ser demonstrada através “da viva e infatigável capacidade de pagar”. Veblen explicava magistralmente este comportamento na análise dos setores mais privilegiados da sociedade: “Todo sentido de gastar dinheiro estava em impressionar os outros” – e acrescentava – “ Despertar a inveja dos vizinhos só aumenta a sensação de importância que se tinha”. A classe ociosa não gastava dinheiro de forma ostentatória em coisas úteis – isso era para os que precisavam de dinheiro, não para os que estavam acima dele. O estudo da relação íntima entre um modelo econômico e o comportamento social dos seus executores, possibilita enquadrar as manifestações ideológicas destes na manutenção e perpetuação do sistema. O filósofo e matemático Paul Strathern faz uma análise divertida do livro de Veblen, ao dizer que este escrevera o equivalente socioeconômico de “A roupa nova do imperador” de Christian Andersen. “Descobrira-se que os ricos não vestiam nada senão seus próprios delírios de grandeza”.

Victor Alberto Danich

Sociólogo

3 comentários:

  1. Esse texto é tão realista quanto perturbador, tudo é banalizado em nome do consumo, e que quase sempre para ter algo que a mídia perniciosa prolifera entregam até a alma.

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